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14 de junho de 2011

A impenitência final

No majestoso livro L’éternelle vie et la profundeur de l’ame, o Pe. Garrigou-Lagrange faz num dos capítulos um apanhado do que, em boa teologia, se chama impenitência final, ou seja: a total privação da graça eficaz no momento da morte, o que faz com que o pecador se perca definitivamente — e vá para o inferno. Em resumo, a alma neste estado fechou-se à reparação satisfatória que só poderia advir da contrição e dos conseqüentes atos de penitência exigidos pela sabedoria divina para que se salve.

Por Sidney Silveira

Em sentido geral, a impenitência define-se como ausência de satisfação pelos pecados cometidos. E pode ser ela temporal, nos casos em que, no decurso da vida, o pecador habitualmente age contrariamente à lei divina, e por isso encontra-se numa situação de grave risco; ou eterna, no caso da impenitência de alguém que se mantém fechado à ação da graça no exato momento da morte. Aqui, a pessoa morre em estado de endurecimento do coração. Em todos os casos, a impenitência sempre pressupõe uma vontade aderida ao mal.

26 de maio de 2011

Falsas Curas e Falsos Milagres

1 - Não negamos a possibilidade de autênticos milagres, que Deus pode sempre operar, quando Lhe aprouver, por razões superiores, como, por ex., provar a divindade de Jesus Cristo e autenticidade de sua missão divina. Afirmamos, isto sim, que Ele não os opera através das seitas heréticas ou das superstições, e mesmo do falso carismatismo, atualmente em voga. Se o fizesse, estaria aprovando e incentivando a desorientação dos fiéis e a perdição das almas. São, pois, falsos esses propalados milagres.


Distinguimos, então, três casos desses falsos milagres e falsas curas transformados em verdadeiro Comércio de Bênçãos, como é praticado nas seitas carismáticas! - Esses casos podem ser:

24 de maio de 2011

Quando Obedecer é Rebeldia

Será que faltamos à obediência prometida na ordenação ou é D. Luciano que nos quer impor uma obediência que não é conforme aos ensinamentos da Igreja?


O grande São Bernardo ensina: “Aquele que faz um erro porque lhe mandam, faz menos um ato de obediência que de rebeldia. Faz uma inversão das coisas: deixa de obedecer a Deus, para obedecer aos homens”. (Cf. Oeuvr Completes de S. Bernard, Charpentier, Tomo I, Episto VII).


No “Jornal do Brasil” de 26/09/83, pg. 9, sob o título “A rebelião dos que prometeram obedecer”, D. Luciano Cabral Duarte, Arcebispo de Aracaju, invectiva incisivamente os 25 padres tradicionalistas de Campos.


I – O arrazoado de D. Luciano vem recheado de invectivas pessoais. Para ele, somos “pretensos defensores da doutrina da Igreja”; atingimos o ponto extremo da “insensibilidade católica”, temos a “pretensão inaudita” de possuir “o monopólio da verdade católica”. Enfim, nós nos emparedamos no “fanatismo”, na “ideologização” como “na torre de marfim” da cegueira e do orgulho, erigindo-nos em donos, regra e medida da verdade.

19 de maio de 2011

Sobre as Provas da Existência de Deus à Luz da Ciência Natural Moderna


Alocução “Un ora”, 1952*


Pio XII


ÍNDICE


Introdução
Natureza e fundamentos das provas da existência de Deus
Duas essenciais notas características do cosmo
A) A mutabilidade do cosmo. Fato da mutabilidade
a) No macrocosmo
b) No microcosmo
Na esfera eletrônica
E no núcleo
O eternamente imutável
B) A direção das transformações
a) No macrocosmo: a lei da entropia
b) No microcosmo
C) O universo e seus desenvolvimentos
No futuro
No passado
D) O princípio no tempo
1. O distanciamento das nebulosas espirais ou galáxias
2. A idade da crosta sólida da terra
3. A idade dos meteoritos
4. A estabilidade dos sistemas de estrelas duplas e dos amontoados de estrelas
E) O estado e a qualidade da matéria originária
Conclusão
* * *


16 de maio de 2011

O perigo de conviver com hereges

“Por duas razões não se deve manter relações com os hereges. Primeiramente, por causa da excomunhão, pois, sendo excomungados, não se deve ter relações com eles, da mesma maneira que com os outros excomungados. A segunda razão é a heresia. – Em primeiro lugar, por causa do perigo, para que as relações com eles não venham a corromper os outros, segundo aquilo da primeira epístola aos Coríntios (15, 33): ‘As más conversações corrompem os costumes’. E em segundo lugar para que não pareça se prestar algum assentimento às suas doutrinas perversas. Daí dizer-se na segunda epístola canônica de S. João (v. 10): ‘Se alguém vier a vós e não trouxer esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis, pois o que o saúda toma parte em suas más obras’. E aqui a Glosa comenta: ‘Já que para isso foi instituída, a palavra demonstra comunhão com esse tal: de outro modo não seria senão simulação, que não deve existir entre cristãos’. Em terceiro e último lugar, para que nossa familiaridade [com eles] não dê aos outros ocasião de errar. Por isso, outra Glosa comenta a respeito dessa passagem da Escritura: ‘E se acaso vós mesmos não vos deixais enganar, outros todavia, vendo vossa familiaridade [com os hereges], podem enganar-se, acreditando que esses tais vos são agradáveis, e assim crer neles. E uma terceira Glosa acrescenta: ‘Os Apóstolos e seus discípulos usavam de tanta cautela em matéria religiosa, que não sofriam sequer a troca de palavras com os que se haviam afastado da verdade’. Entende-se, porém: excetuado o caso de alguém que trata com outro a respeito da salvação, com intuito de salvá-lo”.

São Tomás de Aquino [Quaestiones quodlibetalesquodlibeto 10, q. 7, a. 1 (15), c.]

15 de maio de 2011

Declaração sobre a Maçonaria

Congregação para a Doutrina da Fé
DECLARAÇÃO SOBRE A MAÇONARIA

Foi perguntado se mudou o parecer da Igreja a respeito da maçonaria pelo facto que no novo Código de Direito Canónico ela não vem expressamente mencionada como no Código anterior.

Esta Sagrada CongregaçAo quer responder que tal circunstância é devida a um critério redaccional seguido também quanto às outras associações igualmente não mencionadas, uma vez que estão compreendidas em categorias mais amplas.

Permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas.  Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão.

Não compete às autoridades eclesiásticas locais pronunciarem-se sobre a natureza das associações maçónicas com um juízo que implique derrogação de quanto foi acima estabelecido, e isto segundo a mente da Declaração desta Sagrada Congregação, de 17 de Fevereiro de 1981 (cf.  AAS 73, 1981, p. 240-241).

14 de maio de 2011

O cigarro é mau em si?!

Prof. Carlos Ramalhete

Esta visão puritana, muito comum no meio protestante, é uma heresia de base gnóstica, muito comum no protestantismo.

Explico: a gnose, heresia surgida ainda no primeiro século, considera que a matéria é má em si, e que o objetivo do homem seria libertar-se da matéria para tornar-se puro espírito. Foi como resposta à Gnose que São João Evangelista escreveu por inspiração divina, logo no princípio de seu Evangelho, que “o Verbo se fez Carne”. Carne, logo matéria, matéria julgada intrinsecamente má pelos gnósticos. Para um gnóstico, esta frase é uma aberração, uma contradição. Para um gnóstico, se Deus é bom Ele não pode tornar-se matéria, que seria má.

O protestantismo tem uma grande parte de gnose. É por isso que a imensa maioria dos protestantes, por exemplo, recusa-se a admitir que a Santíssima Virgem Maria seja Mãe de Deus; apesar de considerarem que Jesus é Deus e ela é mãe de Jesus, eles não conseguem aceitar a conseqüência lógica disto (o fato de que ela é Mãe de Deus), por puro terror à matéria. Do mesmo modo, os protestantes em geral têm enormes dificuldades em aceitar a ação eficaz dos Sacramentos, pois isto significaria que Deus faz uso de matéria para o bem. Ora, se a matéria fosse má, como eles crêem, realmente o uso de uma coisa má deveria contaminar a coisa boa…

9 de maio de 2011

São Tomás responde: Tudo o que Deus faz, fora da ordem natural das coisas, é milagre?

(II Sent., dist. XVIII, q. 1, a. 3; III Cont. Cent., cap. CI; De Pot., q. 6, a. 2; II Thessal., cap. II. lect. II).


Parece que nem tudo o que Deus faz, fora da ordem natural das coisas, é milagre.


1. Pois, a criação do mundo e das almas, e a justificação dos ímpios, Deus as fez fora da ordem natural, pois, não as fez por meio da ação de nenhuma causa natural. E contudo nada disso é considerado milagre. Logo, nem tudo o que Deus faz, fora da ordem natural das coisas, é milagre.


2. Demais. — Considera-se milagre, como diz Agostinho, algo de árduo e insólito, superior à faculdade da natureza e à esperança de quem o admira. Ora, há certas coisas feitas, fora da ordem da natureza, e que contudo não são árduas, como a restauração e a sanificação das águas (IV Rg, 2). Nem são insólitas, porque acontecem freqüentemente; como quando os enfermos eram colocados nas praças para que, à sombra de Pedro, sarassem. Nem são superiores à faculdade da natureza; assim, quando doentes saram de febres. Nem são superiores à espe­rança; assim, todos esperamos a ressurreição dos mortos, que todavia se há de dar, fora da ordem da natureza. Logo, nem tudo o que se faz, fora da ordem da natureza, é milagre.

8 de maio de 2011

Sendo esta uma época de grave crise advertida...

Sendo esta uma época de grave crise, advertida por Nossa Senhora em Fátima, para que possamos "resistir firmes na fé" (I Pd 5, 9), devemos ser fiéis aos ensinamentos que recebemos pela Tradição, que contém o depósito da Fé, a nossa Barca da Salvação. Nisso consiste a Tradição Católica e desta mesma o apóstolo dos gentios dá testemunho quando aos coríntios diz: “eu vos transmiti aquilo que eu mesmo recebi” (1 Cor 15, 3). E aos tessalonicenses: "Assim, pois, Irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa" (II Tess 2, 15).


"Estou admirado de que tão depressa passeis daquele que vos chamou à graça de Cristo para um evangelho diferente. De fato, não há dois (evangelhos): há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema. Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado! É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo. Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo." (Gal I, 6-12)

7 de maio de 2011

Pequeno Manual do Católico

Por Dom Lourenço Fleichman, OSB


A Missa e outras obrigações


O Santo Sacrifício da Missa


1) O que é a Missa?

A missa é o sacrifício da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo que se realiza sobre o altar.


2) Como pode ser a Missa o sacrifício de Jesus se este morreu na Cruz há dois mil anos?

Pelo rito da Santa Missa, o mesmo sacrifício realizado há dois mil anos torna-se presente novamente, de um modo novo, um modo sacramental, ritual, incruento, ou seja, sem derramamento do Sangue, mas verdadeiro e eficaz.


3) Porque dizemos que a missa é o mesmo sacrifício, presente de modo sacramental?

O Ecumenismo

Por Mons. Marcel Lefebvre
Existe, nesta confusão de idéias em que os cristãos parecem comprazer-se, uma tendência particularmente prejudicial à fé e tanto mais perigosa quanto ela se apresenta sob as aparências de caridade. A palavra, que apareceu em 1927 por ocasião dum congresso realizado em Lausanne, deveria por si própria prevenir os católicos se eles se referiam à definição que lhe dão todos os dicionários: ”Ecumenismo: movimento favorável à reunião de todas as Igrejas cristãs numa só.” Não se podem misturar princípios contraditórios, é evidente, não se podem reunir de maneira a fazer deles uma só coisa, a verdade e o erro. A não ser que se adotem os erros e se rejeite toda ou parte da verdade. O ecumenismo se condena por si mesmo.
O termo conheceu uma tal voga desde o último concílio, que penetrou a linguagem profana. Fala-se de ecumenismo universitário, de ecumenismo informático, e lá sei mais ainda, para exprimir um gosto ou uma idéia preconcebida de diversidade, de ecletismo.

4 de maio de 2011

Teoria tomista da Beleza

Por Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

O que pretendemos aqui é estabelecer, em última instância, o que define o belo. Trata-se, pois, de uma elucubração filosófica a respeito do conceito de belo. Assim, nosso objetivo é atingir uma noção que diga respeito ao belo enquanto tal ou que o caracterize a título exclusivo. É um empreendimento que procura atingir a essência do belo, isto é, aquilo pelo qual o belo é belo e não outra coisa. Não se trata, pois, de dizer tudo sobre o belo, mas de identificar o que, segundo nossa posição, o define enquanto tal.

A nosso ver, o que define o belo enquanto tal foi muito bem trabalhado pela tradição clássica. Grande porta-voz dessa tradição é, sem sombra de dúvida, Santo Tomás de Aquino (1225-1274). Tomaremos, pois, de empréstimo, sua definição do belo. Tomá-la-emos não porque nos apoiamos em sua autoridade, sem mais, como que invocando a célebre sentença: magister dixit; mas, antes, faremos dela uso por ser firme a nossa convicção de que ela, verdadeiramente, coloca em luz meridiana a essência do belo. A definição de Santo Tomás é breve e simples: pulchrum est id quod visum placet [1] (o belo é aquilo que agrada à visão).

29 de abril de 2011

Requisitos Necessários à Salvação do Homem

 Encontrados nas Sagradas Escrituras

Desvinculados da reta doutrina, e entregues à própria sorte por não se submeterem à fiel interpretação das Escrituras Sagradas realizada pela Igreja, os protestantes, em geral, enaltecem um único preceito suficiente para se fazer jus à salvação: "Portanto, se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo." (Jo 10, 9). Ora, não somente isso, mas outros preceitos devam também ser cumpridos para que se conquiste a salvação, pois também são palavras encontradas neste mesmo evangelho (Jo 6, 51-58):

Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo. A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne? Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente.

Tem-se então a obrigação de se alimentar da Eucaristia para poder ser salvo. E a Eucaristia só existe na Igreja Católica Apostólica Romana.* Além do mais, outras obrigações ainda dispoem as Sagradas Escrituras para tornar-se o homem apto à salvação:

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É preciso crer em Deus: "Disseram-lhe: Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua família." (At 16, 31); "Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna." (Jo 6, 47);
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É preciso perseverar até o fim: "Entretanto, aquele que perseverar até o fim será salvo." (Mt 24, 13); "Sereis odiados de todos por causa de meu nome, mas aquele que perseverar até o fim será salvo." (Mt 10, 22);
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É preciso aceitar o sofrimento: "Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim." (Mt 10, 38). É o mesmo que se afirma no evangelho de Marcos (Mc 8, 34-36): Em seguida, convocando a multidão juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á. Pois que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?
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É preciso ser batizado: "Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado." (Mc 16, 16). "Quando Deus aguardava com paciência, enquanto se edificava a arca, na qual poucas pessoas, isto é, apenas oito se salvaram através da água. Esta água prefigurava o batismo de agora, que vos salva também a vós." (Tt 3, 20-21a);
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O evangelista Mateus diz que é preciso guardar todos os mandamentos e praticar a justiça (Mt 5, 19-20):

Aquele que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o menor no Reino dos céus. Mas aquele que os guardar e os ensinar será declarado grande no Reino dos céus. Digo-vos, pois, se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus.

É preciso ouvir a Pedro (O Papa): "Este nos referiu então como em casa tinha visto um anjo diante de si, que lhe dissera: Envia alguém a Jope e chama Simão, que tem por sobrenome Pedro. Ele te dirá as palavras pelas quais serás salvo tu e toda a tua casa." (At 11, 13-14). Leia-se para o mesmo entendimento (At 15, 7): "Ao fim de uma grande discussão, Pedro levantou-se e lhes disse: Irmãos, vós sabeis que já há muito tempo Deus me escolheu dentre vós, para que da minha boca os pagãos ouvissem a palavra do Evangelho e cressem." Nosso Senhor Jesus Cristo não ordenou: "Leiam a Bíblia" e nem "Distribuam Bíblias a todos os povos". Mas antes disse: Ide e ensinai [pregai] a todos os povos..." "Logo, a Fé é pelo ouvido, e o ouvido pela palavra de Cristo" (Rm 10, 16-17).

Tal conjunto de requisitos necessários à salvação encontrados na Bíblia, só a Igreja católica preenche. E isso é fato! Uma cabal confirmação que leva ao claro entendimento de que é através dessa Igreja que se percorre o caminho da salvação, encontra-se no livro dos Atos dos Apóstolos (At 2, 44-47):

"Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação."

Ao contrário, aqueles pertencentes a outras denominações religiosas, afastam perigosamente da salvação as almas que se lhes deixam ouvir, pois que não têm o poder de ensinar e não se submetem à interpretação autêntica das Sagradas Escrituras realizada pela Igreja: "Há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína" (2 Pd 3, 16).

Fonte: http://arenadateologia.blogspot.com/search/label/B%C3%ADblia; Montfort

27 de abril de 2011

A Beleza que não Existe

Por Rodolfo Papa*

O que é a beleza? Uma longa tradição filosófica refletiu sobre este tema, buscando a explicação sobre o que é, como os homens a conhecem, como a admiram, aprofundando na experiência comum, que é o ponto de partida de toda boa explicação.

Desta reflexão surge que a capacidade de admirar da beleza, natural ou artística, caracteriza-se por um "prazer" que reúne não somente os sentidos, mas toda a pessoa: emoções e paixões; razão e intelecto; trata-se de um prazer não destinado ao útil - portanto, um prazer pelo prazer: isso é uma vivência do prazer frente a qualquer coisa que se conhece, sem pretender comprá-la, possuí-la, modificá-la.

A beleza tem um vínculo particular com a vista. São Tomás de Aquino, com sua célebre afirmação - "Pulchrum est quod visum placet" (Summa Theologiae, I, q. 5, a. 4, ad 1um) -, indica que do belo importa a apreensão e, de forma especial, o deleite: o belo é "agradável ao conhecimento" (ibid., II-II, q. 27, a. 1, ad 3um), porque o belo exige ser "conhecido".

A beleza, além disso, tem características constantes, como a harmonia e a regularidade, que o próprio São Tomás afirma com a "integritas sive proportio", ou a certeza, na "debita proportio sive consonantia", ou na "claritas", ou no esplendor corpóreo ou espiritual: a beleza do corpo consiste em ter os membros bem proporcionados (debita proportio), com a luminosidade devida à cor (claritas). A beleza espiritual consiste no fato de que o comportamento e as ações de uma pessoa sejam bem proporcionados (proportio), segundo a luz da razão (claritas) (Ibid., I, q. 39, a. 8, resp.).

Esta definição da beleza, que alguns tacham de intelectualista, constitui a análise racional de experiência comum e geral: confirmando isso, existem diversas buscas de ordem psicológica e antropológica que confirmam como, desde crianças e independentemente da cultura, tende-se a reconhecer como belo e agradável o que é harmônico e proporcionado.

No entanto, nos últimos dez anos, foi-se consolidando uma concepção da beleza separada totalmente do conhecimento sensorial e racional, divorciada do prazer estético e da experiência comum. Trata-se precisamente de um "conceito" de beleza construído por alguns teóricos sem nexo algum com a realidade e com a visão.

Sobre a base deste pressuposto nasceram, ao mesmo tempo, diversas tipologias de arte, implicadas por esta esotérica concepção de beleza (beleza como ausência, como falta de harmonia, como algo estranho...). Nestes "objetos" não se chega a apreciar a beleza de nenhuma das maneiras, mas alguns adeptos destas obras dizem que a beleza está presente.

Acontecem então situações hilariantes, que a meu ver podem ser descritas pela fábula "A roupa nova do imperador", escrita por Hans Christian Andersen (1805 - 1875). A fábula conta a história de um imperador muito vaidoso que é enganado por dois ladrões que dizem ter um tipo de tecido tão belo que só os estúpidos não podem ver. Assim, eles enganam o imperador com um tecido inexistente, que ele finge ver e admira sua beleza, para não ser considerado estúpido. Pede aos ladrões que confeccionem uma roupa com esse tecido, e todos os dignatários da corte e os cidadãos fingem admirar o traje, pensando que não veem a beleza do tecido porque não são capazes de se deleitar. Só uma criança tem coragem de exclamar que o imperador está nu e só então as pessoas se sentem valentes para crer em seus próprios olhos e reconhecer que não viam nada.

Bem, frequentemente, passeando nas salas de muitos museus de arte contemporânea, veem-se muitos imperadores vaidosos, cortesãos e cidadãos, que fingem admirar uma beleza que parece estar reservada só a mentes superiores, até que alguém, com a inocência dos simples, tem a valentia de dizer que não há absolutamente nada.

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* Rodolfo Papa é historiador da arte, professor de história das teorias estéticas na Universidade Urbaniana, em Roma; presidente da Accademia Urbana delle Arti. Pintor, autor de ciclos pictóricos de arte sacra em várias basílicas e catedrais. Especialista em Leonardo Da Vinci e Caravaggio, é autor de livros e colaborador em revistas.

11 de março de 2011

O Jejum e a Abstinência na Lei da Igreja

Para esclarecer possíveis dúvidas.....

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Jejum e abstinência no Novo Código [de Direito Canônico] de 1983

Os dias e épocas de penitência para a Igreja universal são todas as sextas-feiras de todo o ano e o tempo da Quaresma [Cânon 1250]. Abstinência de carne de ou qualquer outro alimento determinado pela Conferência Episcopal deve ser observada em todas as sextas, ao menos que uma solenidade caia na sexta. [Cânon 1251].

Abstinência e jejum devem ser observados na Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa. [Cânon 1252]. A lei da abstinência vincula a todos que completaram 14 anos. A lei do jejum vincula a todos que chegaram à maioridade, até o início dos 60 anos [Cânon 1252]

Jejum e abstinência tradicionais conforme o Código de Direito Canônico de 1917.

Entre 1917 e o Novo Código de 1983, certos países tinham dias de jejum e abstinência particulares a seus próprios países, e.g., os Estados Unidos tinham a vigília da Imaculada Conceição em vez da Assunção como dia de abstinência; dispensas para S. Patrício e São José, etc. Não é possível relacioná-los todos. Publicamos as prescrições do código de 1917 com menção da extensão do jejum e abstinência do Sábado Santo até meia noite que foi ordenada por Pio XII.

Dias de jejum simples:

O jejum consiste numa refeição completa e duas menores, que juntas são menos que uma refeição inteira. Comer entre as refeições não é permitido, mas líquidos podem ser tomados. Carne pode ser ingerida num dia de jejum simples. Os dias de jejum simples são: segundas, terças, quartas e quintas-feiras da Quaresma. [Cânon 1252/3]

Todos eram vinculados à lei do jejum desde completarem os 21 anos até os 60.

Dias de abstinência:

A abstinência consiste em abster-se de comer carne vermelha, molhos ou sopa de carne, nos dias de abstinência. A abstinência era em todas as sextas-feiras, a não ser que sexta-feira fosse um Dia de Guarda [cânon 1252/4]. A lei da abstinência vinculava a todos que tinham completado 7 anos de idade. [Cânon 1254/1].

Dias de jejum e abstinência:

O jejum e abstinência consistem numa refeição completa e duas refeições menores que juntas são menos que uma refeição inteira. Não era permitido comer carne vermelha, molhos e sopas de carne. Não era permitido comer entre as refeições, embora bebidas pudessem ser tomadas. Esses dias eram: quarta-feira de cinzas, toda sexta e sábado da Quaresma (até meia noite no Sábado Santo), em cada uma das Quatro Temporas, Vigília de Pentecostes, Assunção, Todos os Santos e Natal. [Cânon 1252/2]

Os dias tradicionais de abstinência aos que usam o Escapulário de Nossa Senhora do Monte Carmelo são Quartas e Sábados.

Fonte: The year of Our Lord Jesus Christ 2009, The Desert Will Flower Press.

14 de fevereiro de 2011

O verdadeiro significado da Vocação Sacerdotal

"Nec quisquam sumit sibi honorem, sed qui vocatur a Deo tanquam Aaron" (Hb V, 4)

["Ninguém se arrogue esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Aarão"]

"Vocari autem Deo dicuntur qui a legitimis Ecclesiae ministris vocantur"

(Catecismo de Trento: Ordine.)

["São ditos chamados por Deus os que são chamados por legítimos ministros da Igreja"]

A vocação tanto no sentido lato como no sentido estrito (a vocação sacerdotal), ambas são temas de muita discussão, seja entre grupos, seja na consciência da própria pessoa.

Isso se dá pois desde o século XVII o sentido de vocação sacerdotal foi corrompido e se perdeu a simplicidade com que era tratado o tema antigamente.

O autor de "La Vocation Sacerdotale¹", o Pe. Joseph LAHITTON, ao publicar seu livro gerou diversas polêmicas no meio eclesiástico, principalmente entre reitores de seminário e teólogos, pois a explicação que expõe sobre o que é a Vocação Sacerdotal contrasta fortemente com o que a maioria das pessoas desde o século XVII (autores santos inclusos) pensam sobre o tema. Por isso, muitos deles quiseram colocar seu livro no Index e, para solucionar de vez a questão, o Papa da época, S. Pio X, resolveu criar uma comissão de cardeais para analisar o livro. Dessa comissão saiu o parecer definitivo de que o livro do Pe. LAHITTON expressa a mais ortodoxa doutrina católica sobre o tema. Mesmo assim, infelizmente, essa obra ainda é muito pouco conhecida atualmente e, conseqüentemente, a idéia errônea sobre a Vocação Sacerdotal ainda é muito difundida entre os católicos do mundo.

Não pretendemos abordar todo o livro neste artigo, pois ele trata exaustivamente sobre o tema e aqui nos limitamos apenas a ressaltar os pontos principais acerca da Vocação Sacerdotal tal como ela deve ser compreendida.

Primeiramente, o que pode chocar muitos, nenhum seminarista do mundo tem Vocação Sacerdotal. Mesmo os que juram de pé juntos terem "sentido" a Vocação no âmago do seu ser, ou os que dizem querer ser sacerdote desde a mais tenra idade tendo inclinação para tal, nenhum deles tem a Vocação Sacerdotal. E por quê? Porque apenas o Bispo confere o chamado sacerdotal ao chamar (vocare) o candidato ao sacerdócio no Rito da Ordenação. Apenas após receber a Ordem é que se pode dizer, em sentido próprio, que a pessoa recebeu a Vocação Sacerdotal, pois recebeu esse chamado de Deus por meio do Bispo, representante de Deus na Terra. E também é por isso que, em sentido estrito, é errado dizer que um padre pode perder a vocação ao longo da vida, pois tendo o caráter sacerdotal impresso na alma, não se o perde mais, mesmo após cometer as piores atrocidades.

O que querem dizer, então, quando falam que alguém tem vocação ou perdeu a vocação?

Deve-se entender aqui a vocação no sentido amplo da palavra, sendo sinônimo de idoneidade ao sacerdócio. Essa idoneidade, para o sacerdócio, consiste em: ser homem, batizado, com condições físicas, intelectuais e morais necessárias para exercer o sacerdócio. Logo, para buscar o sacerdócio, é preciso ter: intenção reta, idoneidade intelectual e idoneidade moral. Critérios bem objetivos, nada sendo dito de fatores subjetivos tais como: inclinação ou atração ao sacerdócio, graças místicas extraordinárias, etc.

O autor ressalta que a vocação pode ter 3 origens:

Revelação divina formal, como é o caso de S. João Bosco que teve a visão na qual cuidava de garotos e Nosso Senhor o chamava para cuidar deles.

Inspiração divina, isto é, se tem um impulso da vontade pela graça em direção ao sacerdócio, sem uso das sugestões da imaginação nem da deliberação da inteligência

Eleição sobrenatural, relativa à virtude da prudência infusa, sem revelações pessoais, nem impulsos da vontade, mas fruto de meditações, deliberações e de eleição feita à partir da livre iniciativa.

Aparentemente, o modo 1 seria o ideal para avançar em direção ao sacerdócio, enquanto que o modo 2 seria o mais comum e o modo 3 seria algo de sacrílego, pois como pode alguém, utilizando apenas a inteligência, buscar o sacerdócio sem ter sido chamado por Deus? Seria um usurpador!

E é aqui que todos se enganam. O modo 1 e 2 podem nos enganar, pois podemos nos iludir achando que é inspiração divina o que é inspiração do demônio. Enquanto que o modo 3, baseado na reta razão, que explicaremos mais à frente, é o mais seguro. Assim, os modos 1 e 2 só servem para formar o modo 3, enquanto que o modo 3 se basta por si mesmo. Não se ignora aqui que o modo 3 pressupõe a graça, pois toda moção a um bem sobrenatural (a maior glória de Deus e a salvação das almas pelo sacerdócio) não pode ser fruto da natureza humana, mas da graça divina. O que se exclui aqui é a teoria da expectativa, onde se espera receber um sinal de Deus para se decidir em favor do sacerdócio.

Em 1907, o cardeal Gennari numa obra em que diz: "deve-se evitar dois opostos: o semi-pelagianismo que diz que podemos com nossas obras e livre-arbítrio nos antecipar à graça e o quietismo que ensina que devemos antes esperar receber a graça sem nada fazer anteriormente devendo apenas seguí-la. O correto é que a graça é necessária para começar, prosseguir e completar qualquer boa obra, mas essa graça não é extraordinária ou sensível. Logo devemos nos esforçar a fazer obras santas, supondo sempre em nós a dita graça. Se Deus se manifesta de modo sensível, cabe examinar com diligência se ela vem de Deus" (pg. 136, "Del falso misticismo")

No que consiste, então, essa resolução ao sacerdócio?

Essa resolução se dá pelo seguinte silogismo genérico:

Ama-se a Deus e se quer fazer algo por Ele (querer inicial [aqui o autor utiliza o termo "sentimento inicial", o que daria a impressão do sentimento vir antes de tudo, mas mais à frente ele classifica mais adequadamente essa postura inicial como "querer primitivo" que, obviamente, aparece após se conhecer algo de Deus, pois só podemos querer algo após o conhecermos])

Quer-se que outras almas tenham o mesmo querer em relação a Deus (intenção inicial)

Como alcançar isso? (deliberação)

Pelo sacerdócio!... mas sou tão fraco!... Todavia: "tudo posso Naquele que me conforta²" (conclusão da deliberação)

Escolho então o sacerdócio! (eleição)

Serei então padre. Devo buscar o sacerdócio. (intenção nova)

Como alcançá-lo? (nova deliberação)

Entrando no seminário. Sendo dócil à formação que lá se dá e correspondendo às graças de Deus (conclusão da deliberação)

Entrarei então no seminário e farei o que me propus (nova eleição)

Entremos, então, no seminário e mãos à obra! (resolução imperativa)

Vida no seminário até atingir o sacerdócio (execução)

Aqui, cabe ressaltar que o item (d) pode ser substituído por outra coisa, como a vida religiosa, ou a de leigo celibatário, ou a de casado. O que se busca ressaltar aqui é a intenção e a razão que devem mover o candidato ao sacerdócio. Basta escolher o sacerdócio por um motivo digno do sacerdócio, e assim tem-se uma intenção sobrenatural. Não há aqui nem revelação, nem inclinação sobrenatural, nem inclinação natural. Elas podem ajudar a atingir a eleição do sacerdócio, mas não são essenciais.

Ora, só podemos querer algo que conhecemos. É por isso que não se deve levar em conta quando uma criança ou um recém-converso diz querer ser padre. Deve-se antes compreender o que é o sacerdócio para depois se tomar uma decisão prudente, com a ajuda de conselhos de pessoas

convenientes, em direção dele.

Daqui decorre a utilidade dos Seminários Menores para mostrar aos jovens o que é o sacerdócio e à partir dele tomarem a decisão mais fundamentada de seguir ou não em direção ao Seminário Maior. O Seminário Maior não é, no entanto, o local onde estão as pessoas que inexoravelmente serão padres. Sua função ainda é a de fazer conhecer a vida sacerdotal, retificar a intenção dos candidatos para ajudá-los a tomarem melhor a decisão e torná-los idôneos intelectual e moralmente, até o dia em que fizerem os votos, ao receberem o subdiaconato.

Após ter feito a eleição pelo sacerdócio, o candidato deve ter a intenção firme e constante de obter, não o sacerdócio, mas a idoneidade sacerdotal. A idoneidade do candidato, porém, não lhe dá direito à Ordenação. Isso se dá, pois não se é padre para benefício próprio, mas para o bem da Igreja, e quem decide quais são as necessidades da Igreja são os Bispos. Logo, se um Bispo, hipoteticamente, precisar de apenas 3 padres para a sua diocese, e possuir 20 seminaristas no seminário, ele pode, ou melhor, deve, escolher apenas os 3 mais aptos para o cargo, não necessariamente os mais santos, pois esses podem viver melhor como religiosos do que padres, mas os mais aptos às suas necessidades. Não se deve ser padre para buscar primeiramente a santidade própria, isso é próprio dos religiosos, mas se deve buscar ser "vocacionável" em relação ao Bispo, isto é, se deve buscar ser cada vez mais idôneo intelectual e moralmente. Não há um direito ao sacerdócio, mas é o Bispo quem decide quem será ou não padre, com base em limites mínimos de idoneidade intelectual e moral, pois que ninguém é capaz de alcançar, dentro do espaço de tempo de uma vida humana, a ciência e a santidade próprias do sacerdócio, mas se deve buscá-las continuamente.

Deus pode não querer necessariamente que alguém venha a ser padre, como é o caso típico do pai de Santa Teresinha de Lisieux. Deus pode querer que alguém fique no Seminário por um determinado tempo e depois saia, utilizando o que aprendeu lá dentro em benefício para o resto de sua vida. O

seminarista deve primeiro buscar fazer a vontade de Deus antes que buscar o sacerdócio "à todo custo". Um exemplo disso é a história de Abraão e Isaac. Deus move interiormente Abraão a imolar seu filho, Isaac, mas não quis que isso chegasse a cabo, impedindo na última hora que Abraão imolasse seu filho, sem, contudo, tê-lo impedido antes. Santa Teresa d'Ávila, longe de atração, tinha repúdio à vida religiosa, mas decide por ela mesmo assim para garantir sua salvação. A fé dá as premissas e a razão as une para obter uma conclusão.

No que tange a falta de vocação, vemos que ela é devida à omissão de Bispos e padres no seus respectivos papéis de recrutadores de sacerdotes em que deviam formar os jovens, tornando-os idôneos ao sacerdócio e motivando-os a conhecer a vida sacerdotal, a começar com o exemplo próprio.

Hoje em dia, a motivação de seguir o sacerdócio provém principalmente de livros de santos, pois os exemplos de muitos sacerdotes atuais mais desmotiva que ajuda um jovem a ser sacerdote.

O Bispo, no seu papel de "procurador da vinha³" não deve esperar sentado enquanto jovens que "se sentem chamados" lhe vão ao encontro para se tornarem sacerdotes. Esta é a noção errada de vocação sacerdotal que produz diversos frutos ruins. S. Paulo ao chegar num lugar novo, esperava ele que pessoas viessem tornar-se padres? Como poderiam se nem sabiam o que é o sacerdócio? Foi S. Paulo que após instruir o povo, escolheu os mais idôneos para o sacerdócio. Então a atitude é objetiva e parte do superior para o inferior, e não o oposto, onde o inferior, por uma moção subjetiva, busca o superior.

De fato, atualmente não é mais possível que o Bispo escolha o sacerdócio dentre todos os fiéis de uma cidade grande pois é impossível conhecer bem todos os candidatos, daí a necessidade do Seminário que "filtra" os interessados de modo que o Bispo escolherá para o sacerdócio apenas os que se dispõem para tal, no seminário. Essa redução do espaço amostral não implica que todos os seminaristas virão a ser padres, pois o Bispo tem o dever de chamar apenas os que preencheram os quesitos por ele estabelecidos (incluindo as idoneidades intelectual e moral). O autor, por experiência, diz que um Bispo nunca se arrependeu ao dispensar um candidato por engano, mesmo sendo ele idôneo para o sacerdócio, mas se arrependerá amargamente pelo resto da vida por apenas um candidato não-idôneo que ele tenha feito sacerdote, pois ele será parcialmente cúmplice de todos os erros e escândalos que esse padre cometer, mostrando com qual rigor o Bispo deve ter para selecionar os candidatos.

Finalizando a explicação sobre a verdadeiro significado da Vocação Sacerdotal4, tratarei do que é necessário para um candidato buscar o sacerdócio: a intenção reta, a idoneidade intelectual e moral.

Há 3 julgamentos que podemos fazer sobre a idoneidade de um candidato:

zona externa: são os impedimentos físicos e canônicos de um candidato ao sacerdócio. Por exemplo, uma pessoa muda não pode ser padre, pois lhe é impossível consagrar uma hóstia.

zona intermediária: exteriormente, o candidato demonstra sua idoneidade moral e intelectual, ao seguir ao longo dos anos no seminário o regulamento e conseguindo boas notas nos exames.

zona secreta: aqui o candidato coloca-se diante de Deus e da Igreja. Convém pedir conselho a alguém mais sábio, um diretor espiritual de confiança, por exemplo.

Deve-se ter também o desejo de castidade perpétua e "manter-se numa dependência perpétua da ação divina, se desconfiar constantemente de si mesmo, rezar constantemente, agradecer a Deus pelo que recebeu e implorar aquilo de que ainda se tem necessidade." (pg. 108 do livro).

A intenção reta se fundamenta na glória de Deus e na salvação das almas, buscadas espontâneamente em direção do sacerdócio, mesmo após hesitações e repugnâncias.

A idoneidade intelectual consiste na capacidade de aprender as ciências propriamente sacerdotais. O autor aconselha: "Se queres fazer progressos rápidos e sólidos nos estudos das ciências sagradas, aplique-os à sua conduta" (pg. 453)

A idoneidade moral consiste nos 3 julgamentos que expusemos acima. Se houver queda certo tempo antes do subdiaconato, convém esperar mais antes de receber essa ordem que já exige os votos. Aqui o autor recomenda duas características que devem ser próprias de todo seminarista: a humildade e o espírito de sacrifício. Máximo a se buscar: "a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida5".

Essa é, em resumo, a noção verdadeira da Vocação Sacerdotal.

Então, de onde veio a idéia moderna de vocação largamente difundida em nossos dias?

O autor explica que o sentido da palavra "vocação" foi alterado no século XVII para evitar a vinda de padres indignos que buscavam o sacerdócio para obter vantagens para a família ou por falta de coisa melhor a fazer (não queriam trabalhar, guerrear, etc.). Mas essa foi a saída errada, o correto seria que os Bispos barrassem esses candidatos, mas, por fraqueza humana, não o fizeram...

Desde então, a vocação é entendida como uma inspiração divina (modo 2) e não como fruto de uma meditação deliberada (modo 3) pela qual se busca a idoneidade para alcançar o fim. De tal modo que muitos buscam o sacerdócio com base em consolações espirituais recebidas e, ignorando o quesito da idoneidade, "bem rápido o anjo [a atração sensível] some, fica só a besta!" (pg. 360). Essa idoneidade deve ser analisada pelo Bispo (ou alguém delegado por ele) e pelo próprio candidato (se busca ser honesto diante de Deus).

Isso explica a dificuldade de se entenderem os textos que tratam atualmente sobre o tema da vocação, mesmo entre os santos, como, por exemplo, o grande doutor da Igreja, Santo Afonso. Ele condena os Bispos que conferem as Ordens aos não-chamados. Ora, pela explicação acima, sendo o Bispo quem dá o "chamado" propriamente ao candidato, não faz sentido o Bispo "chamar" quem já é "chamado", como Santo Afonso quer. Pela noção moderna de vocação, se entenderia que Santo Afonso queria que os Bispos ordenassem só os que se sabem "chamados por Deus", por meio de algum sinal de vocação interior recebido. Mas tampouco é isso que Santo Afonso quer dizer. Santo Afonso, apesar de não se expressar claramente, quer dizer apenas que o Bispo não deve dar as Ordens para os que não são idôneos, esse sendo o sentido que busca dar à palavra "chamado".

Santo Afonso é acusado pelo autor de ter sido influenciado pelo rígido Habert (1668) em relação à teoria da predestinação a um estado de vida determinado. Santo Afonso teria se baseado numa opinião teológica bastante difundida em sua época. Essa opinião é fruto de uma confusão. Com base nos princípios corretos de que cada homem chega nesse mundo com seu destino fixo pelos planos eternos e de que é necessário se preocupar em fazer a vontade de Deus e de ser fiel à nossa destinação, conclui-se estranhamente que é necessário conhecer o que está nos decretos eternos antes de escolher um estado de vida.

Dessa tese rigorista decorre que: Deus tem um plano para a nossa vida que leva a um estado de vida determinado fora do qual se é um "desviado". Entrar num estado sem a ele ser chamado ou não entrar onde se é chamado são dois casos igualmente perigosos para a salvação eterna. Deus nos teria preparado apenas uma via pela qual seremos salvos e na qual nos são preparadas graças especiais que deveríamos receber.

Essa tese é atualmente condenada devido às seguintes razões: somos incapazes de conhecer os projetos divinos para nós (salvo revelação expressa); as vontades particulares de Deus nos são desconhecidas; a única conformidade possível com a vontade de Deus é sob a razão de bem em geral ("sub rationi boni"), e essa razão nos é conhecida pelas regras universais dos mandamentos divinos e os conselhos evangélicos, uns dizendo o que é prescrito, os outros o que é melhor e facultativo.

Por isso é que Santo Ambrósio já dizia: "Escolha o estado de vida que quiser e Deus lhe dará as graças próprias e convenientes a esse estado para que nele viva honesta e santamente6". E segundo Santo Tomás de Aquino, a Providência de Deus não impõe a ninguém (geralmente) um estado de vida determinado; mas ela dispõe tão bem os temperamentos e as inclinações dos homens que, junto com as livres escolhas feitas por cada um, se vê que a cada carreira humana se acha um número conveniente de livres-candidatos. Logo, pode-se tanto ser sacerdote, religioso, leigo celibatário ou leigo casado. Deus dará as graças convenientes a cada estado, não havendo "graças especiais" reservadas, ou "condenações implícitas" decorrentes da escolha de um estado de vida, contanto que a pessoa escolha o estado de vida com a intenção reta, sob os ditames da prudência natural e sobrenatural.

Da noção torta de vocação que temos atualmente decorrem diversos erros. As pessoas de temperamento mais frio, refratárias aos sopros de certa sensibilidade mística, embora sendo idôneos, não "se sentindo chamados", evitam o sacerdócio. Os entusiastas, propensos às ilusões, fazendo pouco caso das capacidades necessárias para o sacerdócio, ressaltam ainda mais o que consideram como voz interna e presunçosamente a exteriorizam aos outros. Citam o S. Cura d'Ars como exemplo, mas esquecem de dizer que houve apenas um S. Cura d'Ars na História da Igreja! Devemos imitá-lo na santidade, sem dúvida, mas não na sua incapacidade de estudo que Deus supriu de uma maneira singular e excepcional.

Outra conseqüência desastrosa da falsa noção de vocação é achar que o Seminário e o chamado do Bispo no dia da Ordenação são meras formalidades canônicas, apenas confirmam uma predestinação ao sacerdócio já presumida pelo candidato. Os que estão "certos" de terem uma vocação vivamente sentida, negligenciam seu aperfeiçoamento em vista do sacerdócio, enquanto que os bons são excluídos dos Seminários, por não ousarem serem padres...

Com as noções ensinadas pelo autor acerca da Vocação pode-se melhor compreender certas frases como: "S. João Bosco disse que de cada três meninos, ao menos um tem vocação". Isso não quer dizer que um terço dos meninos deve invariavelmente tornar-se sacerdote. Não. Isso quer apenas dizer que um terço dos meninos tem as condições mínimas para serem idôneos ao sacerdócio.

Há outros textos sobre vocação que oscilam entre a noção correta de Vocação Sacerdotal e a noção moderna, errada. Por exemplo, há um texto que lamenta os "que se sentem chamados mas não querem responder". Ora, o chamado no sentido estrito é o que o Bispo fala no Rito da Ordenação, logo não há "sentir" algum do candidato. O outro sentido, mais largo, é a idoneidade do candidato ao sacerdócio (também conhecido como "sinal de vocação") que se baseia numa análise objetiva de suas capacidades e também não envolve nenhum "sentir". Logo, vemos claramente como esse texto se desvia da compreensão correta da Vocação Sacerdotal.

No entanto, mais à frente, o texto indica corretamente alguns erros relativos à idéia de vocação como "Outros imaginam que faz falta ter escutado algum dia, uma pequena voz interior que lhes dizia: 'vem...!'", mas depois dá a entender a idéia de "predestinação a um estado de vida" quando diz: "é verdade que um homem que por sua culpa se põe fora do caminho que Deus o chama de maneira certa e insistente (porque há chamados mais insistentes que outros), este indivíduo se privaria de muitas graças e poria em risco a sua salvação".

Novamente volta a dizer a noção correta quando simplifica "O sábio teólogo Noldin diz: 'qualquer pessoa que tem a idoneidade e a intenção reta e aspira ao sacerdócio, pode apresentar-se ao Bispo'". Assim, o texto não trata com a mesma clareza sobre o tema tal como Pe. LAHITTON expõe em seu livro aprovado por S. Pio X.

Em suma, relato um resumo feito por um livro de Vocação Sacerdotal sobre a posição do Pe. LAHITTON: "A postura de LAHITTON tem evidentes consequências práticas: deixa claro que a vocação não é um sentimento interior, nem um desejo ou inclinação da pessoa pelo ministério, a vocação é uma chamada de Deus através da Igreja representada pelo Bispo. A chamada do Bispo é a vocação definitiva e o critério que este seguirá será comprovar as aptidões do candidato e a utilidade da diocese.7"

Esperamos que este artigo ajude a muitos, assim como nos ajudou a entender corretamente sobre esse tema atualmente tão mal compreendido e tão importante, de modo a não precisarem se lamentar tal como S. João Bosco em seu livro quando disse: "Se ao menos eu tivera alguém que cuidasse da minha vocação! Que grande tesouro ele seria para mim, mas eu não tinha esse tesouro. Eu tinha um bom confessor que buscou me fazer um bom Cristão, mas nunca buscou se envolver pela questão da minha vocação.8". Vemos que seu confessor considerando a vocação erroneamente como uma inspiração divina pessoal na qual não deveria se envolver, mas apenas Deus, não buscou analisar objetivamente a idoneidade de D. Bosco e levá-lo, após convite seu, a um Seminário para definitivamente ver se ele poderia ser ou não sacerdote.

Que isso não se repita e corramos o perigo de perder novos S. João Boscos por aí...

Nossa Senhora do Bom Conselho, rogai por nós!

Antonio Thatler

APÊNDICE

Apesar do livro não tratar diretamente sobre a vocação religiosa, podemos aproveitar alguns princípios e aplicá-los analogamente à vida religiosa. Deixo como adendo a seguinte citação de S. Tomás para os que têm medo da vida religiosa tal como se deve ter medo da vida episcopal:

"O estado de religião e o episcopado não têm a mesma natureza, por duas razões. - Primeiro, porque o estado episcopal preexige a perfeição da vida; o que o demonstra a interrogação feita pelo Senhor a Pedro, antes de lhe cometer o oficio pastoral, quando lhe perguntou se o amava mais que os outros. Ao passo que o estado de religião não preexige a perfeição, mas é uma via para a perfeição".(AQUINO, Santo Tomás. Suma Teológica: CLXXXV, I, IV)

NOTAS

1.      Tratarei da 7ª edição do livro, mais completa, embora possa-se ler a 1ª edição em: http://www.archive.org/details/MN5106ucmf_4

2.      Filipenses IV, 13

3.      S. Mateus XX, 8

4.      Recomendo ler o livro para aprofundar o conhecimento verdadeiro da Vocação Sacerdotal, hoje tão ignorado ou tão erroneamente compreendido.

5.      Cap. 1, "De Diligendo Deo", São Bernardo

6.      Cornelius a Lapide, in I Cor. VII, 7

7.      Pág. 21 , "Discernimiento Vocacional y derecho a la intimidad en el candidato al presbiterado diocesano", Federico Mantaras Ruiz-Berdejo , 2005

8.      Cap. 16, "Memoirs of the Oratory of Saint Francis de Sales from 1815 to 1855, THE AUTOBIOGRAPHY OF SAINT JOHN BOSCO", Traduzido por Daniel Lyons, SDB, 1989.

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Fonte:http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=religiao&artigo=significado-vocacao-sacerdotal&lang=bra

Carta Encíclica MORTALIUM ANIMOS

CARTA ENCÍCLICA

MORTALIUM ANIMOS

DO SUMO PONTÍFICE PIO XI

AOS REVMOS. SENHORES PADRES PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DOS LUGARES

EM PAZ E UNIÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE A PROMOÇÃO DA VERDADEIRA
UNIDADE DE RELIGIÃO



Veneráveis irmãos:
Saúde e Bênção Apostólica.

1. Ânsia Universal de Paz e Fraternidade

Talvez jamais em uma outra época os espíritos dos mortais foram tomados por um tão grande desejo daquela fraterna amizade, pela qual em razão da unidade e identidade de natureza – somos estreitados e unidos entre nós, amizade esta que deve ser robustecida e orientada para o bem comum da sociedade humana, quanto vemos ter acontecido nestes nossos tempos.

Pois, embora as nações ainda não usufruam plenamente dos benefícios da paz, antes, pelo contrário, em alguns lugares, antigas e novas discórdias vão explodindo em sedições e em conflitos civis; como não é possível, entretanto, que as muitas controvérsias sobre a tranquilidade e a prosperidade dos povos sejam resolvidas sem que exista a concórdia quanto à ação e às obras dos que governam as Cidades e administram os seus negócios; compreende-se facilmente (tanto mais que já ninguém discorda da unidade do gênero humano) porque, estimulados por esta irmandade universal, também muitos desejam que os vários povos cada dia se unam mais estreitamente.

27 de janeiro de 2011

A intolerância católica - Cardeal Pie


(Sermão pregado na Catedral de Chartres em 1841)

Meus irmãos(...),

Nosso século clama: "tolerância, tolerância". Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Mas antes de entrar no mérito, destinguimos as coisas, convenhamos sobe o sentido das palavras para bem nos entendermos. Assim não nos confundiremos.

A tolerância pode ser civil ou teológica. A primeira não nos diz respeito e não falarei senão uma pequena palavra sobre ela: se a lei tolerante quer dizer que a sociedade permite todas as religiões porque a seus olhos, elas são todas igualmente boas ou porque as autoridades se consideram incompetentes para tomar partido neste assunto, tal lei é ímpia e atéia. Ela exprime não a tolerância civil como a seguir indicaremos, mas a tolerância dogmática que, por uma neutralidade criminosa, justifica nos indivíduos a mais absoluta indiferença religiosa. Ao contrário, se, reconhecendo que uma só religião é boa, a lei suporta e permite que as demais possam se exercer por amor à tranqüilidade pública, esta lei poderá ser sábia e necessária se assim o pedirem as circunstâncias como outros observaram antes de mim (...).

Deixo porém este campo cheio de dificuldades e volto-me para a questão propriamente religiosa e teológica em que exponho estes dois princípios: primeiro, a religião que vem do céu é verdade e ela é intolerante com relação às doutrinas errôneas; segundo, a religião que vem do céu é caridade e ela é cheia de tolerância quanto às pessoas.

Roguemos à Nossa Senhora vir em nossa ajuda e invocar para nós o Espírito de verdade e de caridade: Spiritum veritatis et pacis. Ave Maria.

Faz parte da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, pode-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária e por conseqüência ela é una e intolerante: in necessariis, unitas. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se ela duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se ela admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa é preciso defendê-la sob pena de ser despojado dela bem cedo.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda parte porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 e 2 fazem 4? Se vierdes me dizer que 2 e 2 fazem 3 ou fazem 5, eu vos respondo que 2 e 2 fazem 4...

Nada é tão exclusivo quanto a unidade. Ora, ouvi a palavra de São Paulo: "unus Dominus, una fides, unum baptisma". Há, no céu, um só Senhor: unus Dominus. Esse Deus, cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: una fides. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: unum baptisma. Assim, a unidade divina que esplende por todos os séculos na glória de Deus, produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: um Deus, uma fé, uma Igreja: unus Dominus, una fides, unum baptisma.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo e o filósofo de Genebra [Rousseau] disse, falando do Salvador dos homens: "Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma". Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo; se alguém, recusa-se a comer a minha carne e a beber o meu sangre, não terá parte em meu reino. Confesso que nisso não há sutilezas, há intolerância, há exclusão, a mais positiva, a mais franca. E mais, Jesus Cristo enviou seus Apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina vai incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz mas a espada e acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão: Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma (...).

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram
exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo. O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o da sua geografia. O triunfador que subia ao capitólio, fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. A mais das vezes, em virtude de um Senatus-Consulto, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria e o olímpio nacional crescia como o Império.

Quando aparece o cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de algum valor com relação ao assunto presente), o cristianismo quando apareceu pela primeira vez, não foi logo repelido subitamente. O paganismo perguntou-se se, ao invés de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judéia tinha se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo assim como Abraão entre as divindades de seu oratório, como viu-se mais tarde um outro César propor prestar-lhe homenagens solenes. Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros serem colocados ao lado deles, com a chegada do deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranqüila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie ejus. Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando viu-se que os cristãos, dos quais se havia admitido o culto, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando constatou-se o espírito intolerante da fé cristã, é aí então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos. Eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião que não seja a deles. "Eu não tinha dúvidas, diz Plínio o jovem, apesar de seu dogma, que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível": pervicaciam et inflexibilem obstinationem. "Não são criminosos, diz Tácito, mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos": apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium. Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. "Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis, dizia este sofista, nisto não os censuro; eu só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas se os judeus ou os cristãos querem só dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus que os outros".

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus a mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: eis porque a perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi uma obra de intolerância dogmática. Toda a história da Igreja não é outra que a história dessa intolerância. O que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professarem o erro. O que são os símbolos? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. O que é o Papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé.
Porque os concílios? Para freiar os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma; anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; nós disto fazemos profissão; nós nos orgulhamos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e conseqüentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo sobre a terra, apresentou os títulos de sua origem; ela ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: Eu sou a verdade: Ego sum veritas, é necessário por uma conseqüência inevitável, que a Igreja Cristã conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que ela repila, que ela exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina é dirigir-lhe uma recriminação muito honrável. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos do que ouvimos dizer sobre todas estas questões até por pessoas de senso. A lógica lhes falta, desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que elas querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, elas preparam para si uma moral fácil. Diz-se com uma justeza perfeita: é antes o decálogo que o símbolo que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que elas se equivalem todas; se todas são verdadeiras é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E se se pode aí chegar, não sobra mais nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranqüilas, no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques [Rousseau] foi entre nós o apologista e o propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal do catecismo genebrino, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas. Isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins (...).

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais sobre toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem se conciliadas; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em crer possuírem exclusivamente toda a verdade, quando cada um deles só tem um elo e que, da reunião de todos esses elos, deve-se formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas elas são todas incompletas umas sem as outras. A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo que não conhece nenhum; o panteísmo que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo que crê na alma, e o materialismo que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista que a rejeita; o cristianismo que crê no messias que veio e o judaísmo que o espera ainda; o catolicismo que obedece ao Papa, o protestantismo que olha o Papa como o anti-Cristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina que qualificais de absurda, não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, ela toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens entre as mãos dos quais repousam os destinos da França. -- A que ponto de loucura nós então chegamos? -- Nós chegamos ao ponto onde deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma, e por conseqüência intolerante, exclusiva de toda doutrina que não é a sua. E, para juntar em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu lhes direi: procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem se fazer concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que tem um pai comum: vos ex patre diabolo estis. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é um objeto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la. Pedi que vos dêem uma espada, fingi cortar, e examinai as caras que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: essas não são as mães! Há uma cara, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade me pertence e eu devo conservá-la inteira, eu jamais tolerarei que ela seja diminuída, partida. Dizei: esta aqui é a verdadeira mãe!

Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque vós tendes a unidade, e porque vós sois intolerante, não deixais decompor esta unidade.

Fonte: http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=religiao&artigo=intolerancia&lang=bra

16 de janeiro de 2011

Por que a Igreja é tão rica, se Jesus era pobre?

Este artigo é proveniente de uma carta-resposta de Emerson Chenta a um rapaz que fez a seguinte pergunta:

Por que a Igreja e tão rica se Jesus era pobre e pregava a divisão dos bens materiais?

Deus é Senhor absoluto de todas as coisas, porque “todas as coisas foram feitas por Ele e nada do que foi feito, sem Ele se fez.” (Jo 1,1). As qualidades das criaturas, a unidade, a proporção (a variedade na unidade), a grandeza e a ordem do mundo revelam uma causa exterior ao próprio homem Inteligentíssima e Boníssima, fonte de todo bem e toda a verdade. Tudo o que somos e temos procede do Ato Puro, que é Deus. Sendo assim, a própria natureza de Deus estabelece necessariamente entre Ele e nós uma relação de senhorio absoluto sobre o nosso ser e todas as coisas.

Para facilitar seu entendimento, imagine que você por uma desgraça tivesse se tornado paraplégico, surdo, mudo e cego. Enfim, estivesse em estado vegetativo. Se um homem lhe aparecesse e dissesse: eu lhe curo a cegueira, a audição, a fala, e lhe devolvo todos os movimentos, contanto que você não use a fala, a visão, a audição e seus movimentos para me ofender. Não seria justo? Não seria justo que, curado, usássemos a fala, a audição, e os movimentos, enfim, tudo, para retribuir por tão grande bem manifestando a todos a bondade desse homem? Nós recebemos a existência e toda a qualidade de Deus. Nenhum homem fez nada para nascer. Nada que existe foi causa de si mesmo. Esse exemplo é de Santo Antônio Maria Claret em seu livro-comentário Exercícios Espirituais de Santo Inácio, quando trata do princípio e fundamento da religião, que é a compreensão do senhorio absoluto de Deus sobre nós.

Assim, justo é quem obedece a Deus no cumprimento dos seus Mandamentos e empenha todas as suas qualidades e bens para a Sua glorificação.

Essa é uma verdade dura para os tempos atuais. Para os liberais. Para os “intelectuais”. Mas é assim.

De uma forma precisa, a Igreja Católica nos ensina que fomos criados para conhecer, amar e servir a Deus e, mediante isso, salvarmos nossa alma e que a finalidade da Criação como um todo é a glória de Deus.

Por isso, a riqueza, quando subordinada e empenhada para a santificação das almas e para a glória de Deus, é boa. Isto é, quando colabora com a finalidade da Criação, que é a santificação das almas e a glória de Deus. Porque a bondade das coisas consiste em atingir a finalidade para qual elas foram feitas. Assim, uma faca é boa quando corta; um remédio é bom, quando cura; um homem é bom quando obedece aos mandamentos e pratica as virtudes para as quais foi criado.

No Antigo Testamento, no décimo ano de seu reinado, estabelecida a paz, Salomão mandou cortar no Líbano cedros e ciprestes, e fazer um templo riquíssimo, com estátuas em ouro batido e de pedras preciosas. Terminada a construção, que levou sete anos, Salomão convocou os príncipes do povo e ordenou que se transladasse a Arca para o Templo com grandioso cortejo. Cento e vinte sacerdotes tocavam trombetas; os levitas cantavam salmos ao som de instrumentos musicais. Imolaram-se inúmeras ovelhas e bois. Colocada a arca no Santo dos Santos, uma nuvem encheu a casa do Senhor. Salomão prostrou-se diante do altar dos holocaustos e disse: "Senhor, Deus de Israel, se os céus não vos podem conter, muito menos esta casa que eu vos edifiquei. Todavia, dignai-vos a lançar sobre ela um olhar de misericórdia e ouvi a todos aqueles que orarem neste lugar". Então desceu o fogo do céu e consumiu as vítimas. Depois o Senhor apareceu a Salomão e disse: "Nesta casa estarão sempre os meus olhos e o meu coração".

Deus abençoou a obra de Salomão que visava a santificação das almas e a glória de Deus. E isso era excelente.

Por outro lado, se um padre praticasse uma pobreza absoluta e sustentasse uma Igreja totalmente pobre e despojada, por acreditar que a riqueza é má em si, e que toda manifestação visível da Igreja é má, como os hereges espirituais franciscanos da Idade Média, tal atitude seria condenável, por ter como causa e finalidade o favorecimento de uma heresia.

É verdade que Nosso Senhor, como Bom Mestre e modelo de perfeição, quis ensinar por palavras e obras, sobretudo para os judeus, que o Reino de Deus não é desse mundo, contra a expectativa de um Messias político e dominador; queria ensinar o caminho seguro da penitência e do perigo do sucesso no mundo, obstáculo para o nosso desprendimento e assim, quis nascer e viver pobremente; mas de maneira nenhuma é uma condição obrigatória para a salvação, e por isso, a pobreza se classifica como um dos conselhos evangélicos para os que desejam maior perfeição. Assim como o voto de obediência e de castidade também o são. Mas de modo algum são obrigações para a salvação.

Quando o Moço Rico interroga a Cristo sobre o caminho da salvação, Cristo responde para observar os Mandamentos. O Moço rico afirma que já o fazia desde a mocidade. E então Nosso Senhor responde: se queres ser perfeito, vende tudo o que tens e dá aos pobres, toma a sua cruz e siga-me (Mc, 10,17-22). Veja: Cristo não nega a bondade do Moço Rico, pelo contrário, o evangelho diz em latim: dilexit eum. Dilexit significa amar com dileção, com um amor especial. E ele era rico. E foi chamado à perfeição.

São Pedro nos Atos dos Apóstolos repreende duramente Ananias e sua esposa que, de comum acordo, tinham vendido um campo e dado parte do valor dele aos Apóstolos, dizendo que tinham dado tudo. E São Pedro perguntou: “Acaso não o podias conservar sem vendê-lo? E depois de vendido, não podias livremente dispor dessa quantia? Por que imaginaste isso em teu coração? Não foi aos homens que mentiste, mas a Deus.” (At. 5,3). E por isso Ananias e sua esposa foram castigados com a morte. Ou seja, a Igreja, como Cristo, não obrigava a pobreza e condenava a mentira. Hoje os padres modernos condenam os ricos, obrigam a pobreza e não condenam a mentira.

O ex Frei Boff e Robin Hood mandaram distribuir os bens. Jesus Cristo não mandou distribuir os bens. Mandou cumprir os Mandamentos, mandou dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus; mandou amar o próximo como a nós mesmo e a Deus de todo o espírito. Mandou dar esmolas e praticar as obras de misericórdia, por caridade, e não para fazer justiça social.

Porque, rico ou pobre, nós seremos medidos pela caridade. E não pela conta bancária.

Emerson Chenta

http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=doutrina&artigo=20101219094946&lang=bra

12 de janeiro de 2011

Perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores

64. — Encontramos homens de grande sabedoria e força, mas quem confia em sua própria força não trabalha com sabedoria nem conduz até o final aquilo que se propusera fazer. Parecem ignorar que os conselhos dão força às reflexões. Como ensinam os Provérbios (20, 18).

Nos passos do Doutor Angélico, repetimos a plenos pulmões: “Firmamos, pois, que a todos, santos ou não, convém dizer o Pai Nosso, com o pedido: Perdoai as nossas dívidas”.

Santo Tomás de Aquino


Mas notemos que o Espírito Santo que dá a força, dá também o conselho; pois qualquer bom conselho relativo à salvação do homem só pode vir do Espírito Santo.

O conselho é necessário ao homem, quando este sofre tribulações, assim como o conselho do médico, quando se está doente. Quando um homem está espiritualmente doente pelo pecado, deve pedir conselho. E Daniel mostra que o conselho é necessário ao pecador, quando diz ao rei Nabucodonosor (Dn 4, 24): Segue, ó rei, o conselho que te dou, redime os teus pecados com esmolas.

O conselho de dar esmolas e ser misericordioso é excelente para apagar os pecados. Por isso o Espírito Santo ensina aos pecadores esta oração pedindo: Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores.

Além disso devemos verdadeiramente a Deus aquilo a que Ele tem direito e que nós lhe recusamos. Ora, o direito de Deus exige que façamos Sua vontade, preferindo-a à nossa vontade. Ofendemos, portanto, seu direito, quando preferimos nossa vontade à sua, e isto é o pecado. Assim os pecados são nossas dívidas para com Deus. E o Espírito Santo nos aconselha que peçamos a Deus o perdão de nossos pecados e por isso dizemos: Perdoai as nossas dívidas.


65. — Sobre estas palavras podemos fazer três considerações:

a) Primeiro, por que fazemos este pedido?

b) Segundo, quando será realizado?

c) Terceiro, que devemos fazer para que Deus realize nosso pedido?

a) Da primeira, tiramos dois ensinamentos necessários ao homem, nesta vida.

Um, que o homem deve sempre temer a Deus e ser humilde. Há quem seja bastante presunçoso para dizer que podemos viver neste mundo de modo a evitar o pecado. Mas isto a ninguém foi dado, a não ser ao Cristo que possui o Espírito em toda a plenitude; e à Bem-aventurada Virgem, cheia de graça e imaculada, da qual dizia Santo Agostinho: «Desta (Virgem) não quero fazer a menor menção, quando falo do pecado». Mas a nenhum outro santo foi concedido não cair em pecado ou, ao menos, não incorrer em algum pecado venial. Diz, em sua Epístola, São João: Se dissermos que estamos sem pecado, nós mesmos nos enganamos, e não há verdade em nós. (I, 1,8).

E isto tudo é provado pelo próprio pedido. Firmamos, pois, que a todos, santos ou não, convém dizer o Pai Nosso, com o pedido: Perdoai as nossas dívidas. Portanto, cada homem se reconhece e se confessa pecador e indubitavelmente devedor. Se, pois, sois pecador, deveis temer e vos humilhar.

O outro ensinamento é que vivamos sempre na esperança. Ainda que sejamos pecadores, não devemos desesperar. O desespero nos leva a outros e mais graves pecados, como nos diz o Apóstolo (Ef 4, 19): Desesperando, entregaram-se à dissolução e a toda sorte de impurezas.

É, pois, muito útil que sempre esperemos. O homem, por mais pecador que seja, deve esperar sempre o perdão de Deus, se seu arrependimento é verdadeiro, se se converteu perfeitamente.

Ora, esta esperança se fortifica em nós, quando pedimos: Pai nosso, perdoai as nossas dívidas.

67. — Os hereges Navatini negavam essa esperança, dizendo que aquele que peca, depois do batismo, não alcança a misericórdia. Ora, isto não é verdade, se é verdade o que Cristo diz (Mt 18,32): Perdoei-te a dívida toda, porque me pediste.

Assim, em qualquer dia em que pedirdes, podereis obter a misericórdia, se rogardes arrependidos por terdes pecado.

Se, portanto, por esse pedido, nasce o temor e a esperança e todo pecador contrito alcança a misericórdia, concluímos o quanto é necessário fazê-lo.

68. — b) Quanto à segunda consideração, é preciso lembrar que, no pecado, são dois os elementos presentes: a culpa, pela qual se ofende a Deus, e o castigo devido pela ofensa.

Ora, a falta é remida pela contrição, se esta é acompanhada do propósito de se confessar e de satisfazê-la. Declara o Salmista (Sl 31, 5): Eu disse: confessarei ao Senhor contra minha injustiça; e tu me perdoaste a impiedade de meu pecado.

Como dissemos, se a contrição dos pecados, com o propósito de confessá-los, basta para obter sua remissão, o pecador não deve desesperar.

69. — Mas alguém pode objetar: se a contrição do pecado redime a culpa, porque é necessário a confissão ao sacerdote?

A esta pergunta responderemos: Deus, pela contrição, redime o pecado, mudando o castigo eterno em castigo temporal; o pecador, contrito, fica submetido à pena temporal. Assim, se o pecador morre sem confissão, não por tê-la desprezado, mas porque a morte o surpreendeu, irá para o purgatório onde, segundo Santo Agostinho, sofrerá muitíssimo. No entanto, ao vos confessar, o sacerdote vos absolve da pena temporal pelo poder das chaves, ao qual vos submeteis na confissão; pois disse Cristo aos Apóstolos (Jo, 20,22,23): Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados e aos que os retiverdes, serão retidos. Assim, quando se confessa uma vez, alguma parte da pena é perdoada e do mesmo modo, quando se repete a confissão ou se confessa, tantas vezes, quanto necessário, será totalmente perdoada.

70. — Os sucessores dos Apóstolos acharam um outro modo de remir a pena temporal: pelo benefício das indulgências. Para quem vive na caridade, as indulgências têm o valor que o Papa lhes pode conferir.

Quando os santos fazem boas obras, sem terem pecado, ao menos mortalmente, essas obras são úteis para a Igreja. Do mesmo modo os méritos de Cristo e da bem-aventurada Virgem são reunidos como um tesouro. O Soberano Pontífice e aqueles a quem ele confiou tal cuidado, podem aplicar estes méritos, onde mais houver necessidade.

Assim, pois, os pecados são remidos, quanto à falta, pela contrição, e quanto à pena, pela confissão e pelas indulgências.

71. — c) Quanto à terceira consideração: que devemos fazer para que Deus realize nosso pedido, Deus requer, de nossa parte, que perdoemos ao próximo as ofensas que nos fez. É por isso que nos faz dizer: assim como nós perdoamos os nossos devedores. Se agirmos de outra maneira, Deus não nos perdoará.

Diz-nos o Eclesiástico (28, 2-5): Perdoa a teu próximo o mal que te fez e a seu pedido teus pecados ser-te-ão perdoados. O homem guarda sua ira para com outro homem e pede a Deus remédio? Não tem compaixão de um homem seu semelhante, e pede perdão de seus pecados? Sendo carne, conserva rancor e pede propiciação a Deus? Quem lha alcançará por seus delitos? Perdoai, (Lc 6, 37), e ser-vos-á perdoado.

É por isso que neste quinto pedido do Pai N’osso o Senhor nos põe uma única condição: perdoai o outro. Se assim não fazemos, não seremos perdoados.

72. — Mas poderíamos dizer: Direi as primeiras palavras do pedido a saber: perdoai as nossas dívidas, mas não as últimas: como nós perdoamos aos nossos devedores.

Quereis enganar a Cristo? Mas certamente não enganareis. Cristo compôs esta oração e dela se lembra bem; como podeis enganá-lo? Portanto, se dizeis com a boca, ratificai com o coração.

73. — Mas, perguntamos, aquele que não tem o propósito de perdoar seu próximo deve dizer: Assim como nós perdoamos os nossos devedores?

Parece que não, pois estaria mentindo.

Mas respondo que não estaria mentindo, porque não está rezando em seu nome, mas em nome da Igreja, que não se engana. É por isso que esse pedido foi posto no plural.

74. — Precisamos saber que há dois modos de perdoar o próximo. O primeiro é o dos perfeitos, que leva os ofendidos a procurarem os ofensores, como diz o Salmista: (Sl 33, 15): Procurai a paz.

O segundo modo de perdoar é comum a todos, é a obrigação de todos; nada mais é que perdoar os que pedem perdão, como diz o Eclesiástico; (28, 2) Perdoa teu próximo pelo mal que te fez e a seu pedido teus pecados ser-te-ão perdoados.

75. — Bem-aventurados os misericordiosos, é o fruto deste quinto pedido. Porque nos leva a ter misericórdia para com o próximo.