Mostrando postagens com marcador Espiritualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Espiritualidade. Mostrar todas as postagens

23 de setembro de 2012

O Católico e o Sofrimento

Por Gustavo Corção

Pode-se dizer que o católico, na medida em que é fiel e coerente, possui um equilíbrio, uma paz interior que o homem do mundo desconhece; mas essa paz não quer dizer ausência de sofrimento. Seria mais acertado dizer que o católico, na medida em que progride no caminho que Deus lhe propõe, alarga na alma espaços novos para a dor. Como no seu próprio Filho, com o suor sanguíneo, preparou a pele para a subsequente flagelação, assim também a nossa é preparada, é enriquecida com um grau de sensibilidade que o mundo não suspeita. O católico na medida em que procura ser o que é, aprende a sofrer como o músico aprende a ouvir e o pintor aprende a ver. [...]

22 de setembro de 2012

O Fim do Senhor

Por São Máximo, o confessor.

Disse o irmão: 

- Desejo, pai, conhecer qual era o fim do Senhor.

Respondeu o ancião:

- Se queres conhecer o fim do Senhor, escuta com inteligência: Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo Deus por natureza, dignou-se fazer-se homem por amor ao homem, [1] e nasceu de uma mulher e sob a lei, segundo diz o divino Apóstolo, [2] para que o homem, observando o mandamento, anulasse a antiga maldição de Adão. Sabendo o Senhor que toda a lei e os profetas pendem dos dois preceitos da lei: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e ao próximo como a ti mesmo, [3] esforçou-se do início ao fim por observá-los humanamente. E aquele que no princípio enganou o homem e teve por isso o império de morte, ou seja, o diabo, vendo àquele de quem o Pai dá testemunho no batismo, e que, recebendo do céu, enquanto homem, o Espírito Santo conatural a Ele, foi ao deserto ser tentado por ele, concentrou contra Ele todo o seu combate, como se O pudesse fazer antepor a matéria do mundo ao amor a Deus. E, sabendo o diabo que há três coisas por que a humanidade toda é turbada, a saber: o alimento, as riquezas e a honra, mediante as quais sempre levou os homens aos abismos da perdição, nessas três coisas O tentou no deserto. Nosso Senhor, no entanto, manifestando ser mais forte que elas, ordenou ao demônio que se retirasse.

21 de setembro de 2012

Nunca assumir tarefas demais

Dos meios para conservar sempre a alegria: sexto meio.

I. Muitas vezes, exigimos demais de nós mesmo; nos esforçamos; impomo-nos muitos deveres arbitrários, e cumprimo-los com uma rigidez excessiva. Às vezes, estamos esgotados; não importa, queremos concluir nossa obrigação. Daí o abatimento e a tristeza, o mau humor e o rancor. Vós ouvistes falar amiúde de certas devotas, que são mais inquietas do que as pessoas do mundo; e que depois de terem orado longamente a Deus na Igreja, provocam tumultos dentro da própria casa. Elas são piores do que os outros? De forma alguma. Segui-as, vós as achareis mais sábias, mais reservadas, mais imparciais, mais sóbrias, mais contidas, mais aplicadas aos seus deveres do que as mulheres do mundo; seu azedume, em certos momentos, e sobretudo quando elas voltam dos lugares santos ou quando saem dos tribunais sagrados, não provém senão dos escrúpulos que as devoram, ou do excesso de sua aplicação aos santos exercícios, que tensionou demais seus nervos e que as dispôs a se abalarem ao mínimo toque. Se, em vez de estar três ou quatro horas seguidas na Igreja, elas se contentassem com aí permanecer um hora, sairiam mais alegres e mais sociáveis.

17 de setembro de 2012

Nossa Senhora de Pontmain


NOSSA SENHORA DE PONTMAIN -  FRANÇA, 17 de Janeiro de 1871 

Em Janeiro de 1871, Paris está cercada pelo exército da Prússia que há três anos mantém prisioneiro Napoleão III. Pontmain situa-se entre a Bretanha e a Normandia

A aparição de Pontmain marca o fim da invasão prússica da Bretanha mas, pelo simbolismo dos diferentes quadros que se sucedem, ultrapassa o âmbito deste acontecimento.

17.30 h - Eugéneo Berbedette (12 anos), o irmão José (10 anos), e o pai pisam giestas numa granja para fazer cama para os animais.

Jeanette Detais, "a coveira", entra, interrompendo o trabalho, pondo-se à conversa sobre a guerra com o pai das crianças.  Eugénio sai "para ver o tempo".

A cerca de sete metros, por cima do telhado da casa dos Guidecoq, a uns seis metros de altura, Eugénio vê um sítio no céu com menos estrelas. Subitamente, por cima e ao meio do telhado, vê uma Bela Senhora sorridente que olha para a criança com um ar de bondade delicada e terna. Está vestida com um fato à oriental, amplo e de cor azul. Este fato azul (foi feita a associação com a cúpula da igreja de Pontmain, que naquela época estava pintada e salpicada de estrelas douradas), semeado de estrelas de ouro, vai do pescoço aos pés. As mangas são largas e descem até às mãos. A Senhora tem sapatos azuis como o vestido, e sobre o peito do pé, uma fita de ouro forma um anel semelhante a uma roseta bem desenhada. Um véu preto lançado para trás cai até metade das costas. A cabeça da Senhora está enquadrada por três estrelas em forma de triângulo. Tem uma coroa de ouro, espécie de diadema, duma altura de cerca de vinte centímetros, cingida por um galão vermelho mais ao menos a meio que se ia alargando como um cone truncado e voltado para baixo. A Senhora tinha as mãos estendidas e baixadas como na aparição da Medalha Milagrosa.

12 de setembro de 2012

Sinal da Cruz - Terror para os inimigos infernais

"É com o Credo e com o Sinal da Cruz que é necessário correr o inimigo. Revestido destas armas, o Cristão sem dificuldade triunfará do antigo e soberbo tirano. A Cruz basta para desfazer todas as maquinações do espírito das trevas." (lib. de Symb., c. I. - Santo Agostinho)

"O Sinal da Cruz torna impotentes todos os artifícios da magia, ineficazes todos os encantos e ao abandono todos os ídolos. Por ele é moderado, abatido, extinto o fogo da voluptuosidade mais brutal; e a Alma, curvada para a terra, levanta-se para o Céu. Outrora os demônios enganavam os homens, tomando diferentes formas; postados à beira das fontes e dos rios, nos bosques e nos rochedos, surpreendiam por artificiosos enganos aos insensatos mortais. Mas, depois da vinda do Verbo Divino, basta o Sinal da Cruz para desmascará-los todos. Quer alguém a prova do que digo? Não tem mais que colocar-se no meio dos artifícios dos demônios, das imposturas dos oráculos e os embustes da magia e, feito o Sinal da Cruz, verá como por virtude dele fogem os demônios, calam-se os oráculos e se tornam impotentes todos os encantos e malefícios." (Lib. de Incarnat. Verb. - Santo Atanásio)

9 de setembro de 2012

Eles Pertencem ao Mundo!!

Sermão de São João Maria Vianney, o Santo Cura D’ars

Uma parte, e talvez a maior parte das pessoas, está totalmente envolvida com as coisas deste mundo. E, neste largo número, existem aqueles que se julgam felizes por terem suprimido todo e qualquer sentimento de religiosidade, todo e qualquer pensamento sobre a vida eterna, aqueles que fizeram de tudo que estava em seu poder para apagar da memória a terrível recordação do Julgamento, no qual, um dia, todos nós teremos que nos apresentar e prestar contas. Durante o curso de suas vidas, eles usam de tudo quanto é artimanha, e freqüentemente até suas posses, para atraírem para o seu modo de vida tantos quanto puderem. Eles já não acreditam em mais nada. Aliás, eles até sentem um certo orgulho em se exibirem mais ímpios e incrédulos do que realmente são, para poderem convencer os outros a acreditarem, não em verdades, mas sim em falsidades, que vão fincando raízes nos corações daqueles que são influenciados por eles.

22 de agosto de 2012

Imaculado Coração de Maria

22 de agosto - Festa do Imaculado Coração de Maria. 

Depois de ter em plena guerra consagrado o gênero humano ao Imaculado Coração de Maria para o colocar por este modo debaixo da particular proteção da Mãe do Salvador, S. Santidade Pio XII decretou em 1944 que todos os anos se celebrasse doravante na Igreja inteira uma festa especial em honra do Coração Imaculado no dia 22 de Agosto, Oitava da festa da Assunção. É já antiga a devoção ao Coração Imaculado de Maria. No século XVII propagou-o muito São João Eudes juntamente com a do Sagrado Coração de Jesus. No século XIX, Pio VII e depois Pio IX concederam a várias Igrejas particulares uma festa do «Coração Puríssimo de Maria», fixada primeiramente no Domingo dentro da Oitava da Assunção e mais tarde no Sábado que se segue à festa do Sagrado Coração. Pio XII transferiu-a para 22 de Agosto e designou-lhe como principal intenção pedir, por intercessão da Santíssima Virgem, a «paz para os povos, a liberdade da Igreja, a conversão dos pecadores, o amor da pureza e prática da virtude» (Dec. de 4 de Maio de 1944).

"Naquele tempo: Estavam de pé junto à cruz de Jesus Sua Mãe e a irmã de Sua Mãe, Maria mulher de Cléofas e Maria Madalena. Jesus, pois, tendo visto Sua Mãe e o discípulo que Ele amava, o qual estava presente, disse à Sua Mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua Mãe. E, desta hora por diante, a levou o discípulo para sua casa". (Jo 19, 25-27)


Fonte: Missal Quotidiano e Vesperal: por Dom Gaspar Lefebvre. Bruges, 1951, p. 1579-1580; 1581.

17 de agosto de 2012

Dos grandes danos que nascem da tristeza [1]

Esteja muito longe de ti a tristeza, diz o Sábio, porque a tristeza a muitos tem causado a morte, e não há nela proveito algum. [2] Cassiano escreve um livro inteiro sobre o espírito da tristeza, porque para curar, diz, e remediar este mal e enfermidade, não é necessário menor cuidado e diligência que para as demais enfermidades e tentações espirituais que se nos oferecem nesta vida, pelos muitos e grandes danos que traz consigo, os quais vai ali apontando e fundando-os admiravelmente na Sagrada Escritura. Guardai-vos, diz ele, da tristeza; não a deixeis entrar no vosso coração, porque, se lhe dai entrada, e se começa a assenhorear-se de vós, logo vos tirará o gosto da oração, e fará que vos pareça dilatada a hora que se dedica, e que não a cumprais inteiramente, e algumas vezes fará com que totalmente fiqueis sem oração, e que deixeis a leitura espiritual [3].

Em todos os exercícios espirituais vos dará um tédio e um fastio que os não podereis suportar. Por causa do tédio dormitou minha alma [4]. Neste verso, diz Cassiano, declara muito bem o profeta estes males que se seguem da tristeza. Não diz que se lhe adormeceu o corpo, mas a alma; porque a tristeza e a acídia espiritual dão à alma um tão grande tédio e fastio de todos os exercícios e de todas as obras de virtude, que fica adormecida e incapaz para tudo o que é bom. Algumas vezes ;e tão grande este fastio que um sente para as coisas espirituais, que o chegam a enfadar e aborrecer as pessoas que tratam de virtude e de perfeição, e até às vezes procura retraí-las e estorvá-las de seus exercícios de piedade e virtude. 

19 de julho de 2012

O Fiel depositário


Por Bossuet.

É opinião generalizada e sentir comum entre os homens que o depósito, isto é, um bem que recebemos para guardar, tem qualquer coisa de sagrado e que o devemos conservar para quem no-lo confia não somente por fidelidade mas por uma espécie de sentimento religioso. Por isso o grande Santo Ambrósio nos ensina no livro 29 de seus Ofíciosque era piedoso costume estabelecido entre os fiéis o de trazer aos bispos e a seu clero aquilo que se queria guardar com mais cuidado, para que fosse colocado junto ao altar, em virtude da santa persuasão em que estavam de que não havia melhor lugar para guardar um tesouro do que aquele ao qual o próprio Deus confiou a guarda dos seus, isto é, os santos mistérios.

Este costume se tinha introduzido na Igreja a exemplo da sinagoga antiga. Lemos na História Sagrada que o augusto templo de Jerusalém era lugar de depósito para os judeus. Autores profanos também nos ensinam que os pagãos tributavam esta honra a seus falsos deuses, colocando seus depósitos nos templos e confiando-os a seus sacerdotes, como se a própria natureza das coisas nos ensinasse que o respeito ao depósito tem algo de religioso e que não pode estar mais bem colocado do que nos lugares santos onde se reverencia a Divindade, nas mãos daqueles que a religião consagra.

11 de julho de 2012

Prioridade da vida interior sobre a vida ativa

Em Deus está a vida, toda a vida, Ele é a própria vida. Ora, não é nas obras exteriores, como a Criação, que o Ser infinito manifesta essa vida do modo mais intenso, mas sim no que a teologia chama de operações ad intra: essa atividade inefável cujo termo é a geração perpétua do Filho e a incessante processão do Espírito Santo. Essa é, por excelência, a sua obra essencial, eterna. 

A vida terrena de Nosso Senhor Jesus Cristo foi a realização perfeita do plano divino. Trinta anos de recolhimento, seguidos de quarenta dias de retiro e penitência, prepararam a sua curta carreira evangélica; e, durante as suas jornadas apostólicas, quantas vezes ainda, O vemos retirar-se para as montanhas ou para os desertos, a fim de orar: “Ele retirava-Se para lugares solitários e entregava-Se aí à oração” (Lc 6, 12). Rasgo ainda mais significativo: Marta deseja que o Senhor, condenado a suposta ociosidade de sua irmã, proclame a superioridade da vida ativa; a resposta de Jesus: “Maria escolheu a melhor parte” (Lc 10, 42), consagra a importância da vida interior. Jesus quis, pois, fazer-nos ver, claramente, a preponderância da vida de oração sobre a vida ativa.

10 de junho de 2012

O bom e o mau arrependimento

"A tristeza que é segundo Deus, afirma São Paulo, produz uma penitência estável para a salvação; a tristeza do mundo produz a morte (2 Cor. 7, 10). A tristeza pode, pois ser boa ou má, conforme os efeitos que produza em nós. Mas, em geral, produz mais efeitos maus que bons, porque os bons são apenas dois: a misericórdia - o pesar pelo mal dos outros -  e a penitência - a dor de ter ofendido a Deus -, ao passo que os maus são seis: medo, preguiça, indignação, ciúme, inveja e impaciência. Por isso, diz o Sábio: A tristeza mata a muitos e não há utilidade nela (Ecle. 30, 25), já que, para dois regatos de águas límpidas que nascem do manancial da tristeza, nascem seis de águas poluídas"[1].

Essa é a razão por que o demônio faz grandes esforços para produzir em nós essa má tristeza, e, a fim de levar-nos a desanima, começa por perturbar-nos. Não lhe custa muito sugerir pretextos para isso. Não deveríamos afligir-nos por ter ofendido a Majestade divina, ultrajado a Beleza infinita e ferido o coração de Deus, o mais terno dos pais? 

9 de maio de 2012

A mulher deve ser submissa ao homem?


Por Padre Peter R. Scott, FSSPX
Traduzido por Andrea Patrícia
Ainda pode-se afirmar que a esposa deve ser submissa ao seu marido, dadas as mudanças na sociedade moderna?
A devida submissão da esposa ao seu marido pode ser considerada em dois planos diferentes:
• Em primeiro lugar no da lei natural, homem e mulher tendo cada um funções profundamente diferentes no bloco de construção da sociedade que é a família;
• E em segundo lugar no plano sobrenatural.
Esta segunda perspectiva é de longe a mais importante, e ilumina toda a vida de casado. Porque a submissão de uma esposa ao marido é totalmente clara na lei natural a qualquer mulher que não tenha sido contaminada pelos princípios do liberalismo rebelde, que é confirmada explicitamente no Novo Testamento. São Paulo, no quinto capítulo de sua epístola aos Efésios, estabelece os princípios. O marido tem, em virtude do sacramento do matrimônio, sempre de imitar a Cristo no seu amor pela Igreja, e a mulher tem sempre, em virtude do mesmo sacramento, que imitar a Igreja no seu amor por Cristo. Assim, o homem é realmente a cabeça de sua esposa, e tem o dever de assumir a liderança, enquanto que a mulher deve se esforçar para ser o coração respondendo e dependendo da cabeça.

8 de maio de 2012

Visitando a SS. Virgem


Conta o Padre Auriema que uma pastorinha de ovelhas tinha muito amor a Maria Santíssima. Todas as suas delícias eram ir a uma capela da Virgem, que estava no monte, e aí entreter-se sossegadamente com sua boa Mãe, enquanto pastavam as ovelhas. e porque a pequena estátua da Mãe de Deus estava sem enfeite algum, pôs-se a fazer-lhe um manto, com suas pobres mãozinhas. Um dia, colhendo do campo algumas singelas flores, delas compôs uma grinalda. Depois, subindo ao altar, a pôs na cabeça da imagem, dizendo: Minha Mãe, eu quisera pôr-vos na cabeça uma coroa de ouro, mas não posso porque sou pobre. Assim recebei de mim esta pobre coroa de flores; aceitai-a em sinal do amor que vos tenho. Com estes e semelhantes obséquios buscava a piedosa pastorinha servir e honrar a sua amada Rainha. Ora, vejamos agora como a boa Mãe recompensou as visitas e afetos desta sua filha. 

2 de maio de 2012

Se o amigo que se compadece conosco mitiga a tristeza


Por São Tomás de Aquino

(In Iob, cap. II, lect. II; cap. XVI, lect. I; Rom., cap. XII, lect. III; IX Ethic., lect. XIII).
 
O terceiro discute-se assim. — Parece que o amigo que se compadece conosco não mitiga a tristeza.
 
1. — Pois, os contrários são efeitos dos contrários. Ora, como diz Agostinho, quando muitos entre si se comprazem, é mais intenso o prazer de cada um, porque mutuamente se excitam e inflamam1. Logo, pela mesma razão, é maior a tristeza quando muitos estão simultaneamente tristes.
 
2. Demais — A amizade quer ser paga com amizade, como diz Agostinho2. Ora, o amigo compadecido condói-se com a dor do amigo. Logo, essa dor do amigo compadecido é, para o amigo que já antes sofria do mal próprio, causa de outra dor. Por onde, duplicando-se a dor, há-de a tristeza crescer.
 
3. Demais — Todo mal do amigo, bem como o próprio, é causa de tristeza, pois o amigo é outro eu. Ora, a dor é um mal. Logo, a do amigo compadecido aumenta a tristeza do amigo de que ele se condói.
 
Mas, em contrário, diz o Filósofo, que, nas tristezas, o amigo nos consola que sofre conosco3.

A plenitude inicial de graças em Maria


Por Garrigou-Lagrange, Réginald , O.P.

A graça habitual que recebeu a bem-aventurada Virgem Maria no instante mesmo da criação de sua santa alma foi uma plenitude, na qual já se verificava aquilo que viria dizer o anjo no dia da Anunciação: « Ave Maria, cheia de graça ». É o que afirma, com a tradição, Pio IX, ao definir o dogma da Imaculada Conceição.
 
Ele diz mesmo que Deus, desde o primeiro instante, « de preferência a qualquer outra criatura (prae creaturis universis), fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que a todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade »1.
 
Perfeição desta plenitude inicial
 
Poderíamos citar aqui, sobre este ponto, inúmeros testemunhos da tradição2 Cf. Terrien, La Mère de Dieu, t. II, 1, VII, pags. 191-234. – De la Broise, S. J., La Sainte Vierge, cap. II e XII, e Dict. Apol., art. Marie, col. 207, ss. . Insistiremos sobretudo sobre as razões teológicas comumente invocadas pelos Padres e teólogos.

20 de abril de 2012

O monge e o passarinho


Por Pe. Manuel Bernardes

Diálogo entre um religioso e um secular
 
Secular — Já que me sucedeu caminhar em tão boa companhia, hei de aproveitar a ocasião e perguntar alguns pontos que desejava saber.
 
Religioso — Folgarei eu de poder servir a Deus, e prestar ao próximo em alguma coisa.
S. — Padre: Para que Deus criou o homem?
 
R. — Para que o homem se salvasse, e salvando-se, lhe desse glória no Céu eternamente.
 
S. — E que coisa é salvar-se?
 
R. —  É ver a Deus claramente, como ele é em si mesmo, gozar dele, amá-lo e louvÁ-lo para sempre.
 
S. —  Pois Deus tem corpo, ou figura, ou cor alguma para o podermos ver?
 
R. —  Deus é puro espírito: assim como os Anjos e as nossas almas também são espíritos. E por isso, nem os Anjos, nem as nossas almas tem cor, ou figura, que se possa ver com os olhos do corpo. Porém, o vermos a Deus não é senão com os da alma, que é outra vista muito mais clara e nobre.
 
S. — Para que são logo os olhos do corpo, ou em que se hão de empregar, quando estivermos no Céu?

13 de abril de 2012

Podeis ser apóstolos do Sagrado Coração?


[O texto que se vai ler é um resumo feito pelos monges de Sept-Fons, mosteiro trapista, das conferências do padre Mateo Crawley-Boevey, o ardente apóstolo do Sagrado Coração de Jesus. O estilo tão narrativo e direto da transcrição não impede o texto de aumentar nossa devoção pelo Rei de amor]
  
Esta questão, colocada pelo reverendo padre Mateo, já havia sido formulada nos corações de muitos de nós, ou melhor, nos corações de todos nós. É possível ouvir as maravilhas realizadas por toda a parte pela obra da intronização do Sagrado Coração sem desejar de algum modo contribuir com ela? Mas, como fazer, nós, religiosos contemplativos, que não temos mais relação alguma com o mundo exterior1?

1 de abril de 2012

As virtudes do Bom Ladrão e a segunda palavra de Jesus na cruz

Amen dico tibi: Hodie mecum eris in paradiso – “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso” (Luc. 23, 43).


Sumário. Observam os santos Padres que o Bom Ladrão, reconhecendo em Jesus crucificado o seu verdadeiro Deus, confessando-o como tal na presença de seus inimigos e recomendando-se-lhe, deu exemplos das mais sublimes virtudes. Pelo que o Senhor lhe fez com razão a bela promessa de que naquele mesmo dia havia de gozar das delícias do paraíso. Meu irmão, o Senhor não se mudou, e, portanto, se porventura tivéssemos imitado o ladrão em seus desvarios, imitemo-lo também na sua conversão sincera a Deus e também teremos a mesma sorte feliz.

I. Para que o nome de Jesus Cristo ficasse eternamente difamado, os judeus crucificaram-No entre dois ladrões, como usurpador sacrílego da divindade; cumprindo assim a profecia de Isaías: Et cum sceleratis reputatus est (1). - “Ele foi colocado no número os malfeitores”. O Senhor permitiu esta malícia diabólica a fim de nos dar um belo exemplo de conversão sincera e, ao mesmo tempo, uma prova exímia de sua infinita misericórdia.

15 de março de 2012

Num Tribunal Revolucionário

Na revolução francesa de 1793, a igreja de São Pedro de Besançon foi entregue a um padre cismático. Os padres católicos, porém, fiéis às leis da Igreja, eram presos e assassinados pelos revolucionários.

Um dêstes padres, chamado João, ficara entre seus paroquianos disposto a sofrer tudo por Deus e pela Igreja. Andava disfarçado: botas largas, blusa de carroceiro, lenço grande ao pescoço e chicote em punho, lá ia pelas ruas visitando as casas de seus paroquianos. Levava pendurada ao cinturão uma caixinha em que se achava o necessários para administrar os sacramentos, bem como uma píxide de prata onde guardava o Santíssimo.

13 de março de 2012

A Lógica e o Tênis


Nota: Eis aqui uma das muitas situações em que o grande Chesterton nos ensina ser católicos em qualquer discussão, por mais idiota que pareça. Aqui ele comenta o que um jogador de tênis disse sobre o tênis como praticado na Inglaterra e, neste comentário, ele defende toda a metafísica medieval, que é, antes de tudo, católica. Este texto é um capítulo do livro A Coisa.

Gilbert Keith Chesterton

Quando digo que duvidamos do aprimoramento intelectual produzido pelo protestantismo, pelo racionalismo e pelo mundo moderno, isso geralmente causa uma confusa controvérsia, que é um tipo de emaranhado semântico. Mas, em geral, a diferença entre nós e nossos críticos é esta: eles entendem que crescimento é um aumento do emaranhado; enquanto nós entendemos que pensamento é desemaranhar o emaranhado. Mesmo um pequeno pedaço de fio reto vale mais do que toda uma floresta de mero emaranhamento. Que haja mais assuntos sendo discutidos, ou mais termos sendo usados, ou mais pessoas usando-os, ou mais livros e autoridades citadas – tudo isso não é nada para nós se as pessoas usam impropriamente os termos, entendem mal os assuntos, invocam autoridades à esmo e sem o uso da razão; e finalmente conseguem um resultado falso. Um camponês que diz simplesmente, “Tenho cinco porcos; se mato um, fico com quatro porcos,” está pensando de uma maneira simples e elementar; mas está pensando tão clara e corretamente quando Aristóteles e Euclides. Agora, suponha que ele leia ou passe os olhos nos jornais e livros populares de ciência. Suponha que ele comece a chamar um porco de Terra e outro de Capital e um terceiro de Exportação, e finalmente chega a um resultado de que quanto mais porcos ele mata, mais ele possui; ou que cada porca que pare faz decrescer o número de porcos no mundo. Ele aprendeu a terminologia da economia como um meio de simplesmente se emaranhar com a falácia econômica. Ela é uma falácia em que ele nunca cairia se tivesse firmemente imbuído do dogma divino de que porcos são porcos. Para tal tipo de instrução e avanço, não temos nenhum uso; e é verdade, neste sentido somente, que preferimos um camponês ignorante a um pedante instruído. Mas isso não é porque consideramos a ignorância melhor do que a instrução ou o barbarismo melhor do que a cultura. É simplesmente porque consideramos que uma clara cadeia lógica de pequena extensão é melhor que uma interminável extensão do que é interminavelmente emaranhado. É simplesmente porque preferimos um homem que faça uma simples soma certa do que uma longa divisão errada.